Em busca da qualidade:

Publicado por Carlos Cherri, em 12/07/2014,
Fonte: http://www.eufic.org/article/pt/artid/the-scientific-peer-review-process/


Antes de uma afirmação científica se tornar pública, deve examinar-se a sua credibilidade. O investigador apresentou conclusões justificáveis, baseadas em dados credíveis de investigação científica?

O processo de revisão pelos pares é uma forma de controlar a qualidade científica, na qual os cientistas colocam a sua investigação ao exame minucioso por parte de outros especialistas na mesma área de interesse (pares).1 

Através da análise, revisão e crítica dos trabalhos uns dos outros, os cientistas objectivam garantir que apenas investigações credíveis e originais são publicadas e reconhecidas.

Como é que funciona?

Quando a investigação é submetida para publicação numa revista científica com revisão por pares, a revista convida vários (normalmente dois ou mais) especialistas independentes para avaliarem a credibilidade do trabalho.1 Estes especialistas apreciam a metodologia científica, os resultados e as conclusões apresentadas pelos autores, questionando se a ciência é tecnicamente credível, se a interpretação realizada é consistente com os dados apresentados e se a investigação é inovadora e abre portas a novas perspectivas de investigação.2

Geralmente, os revisores são anônimos, não recebem honorários pela sua avaliação e não devem ter conflito de interesses relativamente à investigação apresentada. Se o artigo revisto pelos pares não cumprir os requisitos, o editor pode não aceitá-lo para publicação ou então solicitar alterações de acordo com críticas dos revisores, dando oportunidade aos autores de reagirem e reverem o seu manuscrito.

Porque é importante todo este processo?

O processo de revisão pelos pares verifica se o manuscrito apresentado explica claramente como é que foi efetuada a investigação, para que a mesma possa ser reproduzida por outros. Verifica igualmente se a metodologia utilizada é apropriada na área de estudo em que o trabalho se enquadra e para os objetivos propostos. Outra fase crucial do processo de revisão é avaliar a originalidade da nova investigação e verificar se o que existe já publicado por outros autores dentro da mesma área contrasta com os dados apresentados. 

A revisão é igualmente útil para aqueles cujo trabalho está a ser escrutinado, dado que permite aos autores refinar o manuscrito antes de ser divulgado.2 Raramente um manuscrito é aceite para publicação sem ser submetido, pelo menos, a uma revisão minor. O processo de revisão pelos pares permite separar factos de especulações e opiniões pessoais.2 Quaisquer conclusões tiradas devem ser consideradas no contexto de outros estudos. Idealmente, deve ser possível repetirem-se as experiências de forma a verificar-se se os resultados podem ser reproduzidos; é desta maneira que os resultados são verdadeiramente substanciados. A validação real surge, assim, após a publicação.

Investigação não revista pelos pares

Infelizmente, algumas vezes, os resultados das investigações chegam ao domínio público sem que tenham sido revistos pelos pares e são divulgados via jornais, revistas, internet, televisão e rádio. Estes podem ser resultados não publicados apresentados em conferências ou então, publicados em jornais ou revistas científicas cujo conteúdo não é sujeito ao processo de revisão por pares. De referir que até os jornais/revistas científicas que têm revisão por pares, apresentam alguns conteúdos que não são submetidos a este processo, nomeadamente editoriais e cartas ao editor. Os cientistas e os jornalistas devem perceber o significado e a importância deste processo e indicar claramente se a investigação que apresentam/divulgam foi ou não submetida ao processo de revisão pelos pares. A promoção de resultados científicos com falhas e pouco credíveis carreta custos potencialmente muito elevados tanto para a ciência quanto para a própria sociedade.

Um processo imperfeito

O processo de revisão pelos pares não protege contra má-conduta. Ele pode identificar erros, mas assenta na honestidade dos autores e, por isso, pode falhar no reconhecimento de investigação fraudulenta deliberada. Com o objectivo de reduzir a ocorrência destas situações, são várias as organizações que têm vindo a produzir Boas Práticas de investigação.3 Por outro lado, preocupações financeiras ou pessoais podem enviesar o juízo profissional e a objectividade do revisor.3 De acordo com a Fundação Europeia para a Ciência a prevenção e a gestão destes conflitos de interesse são cruciais para assegurar a equidade e integridade.3 Por vezes, levantam-se preocupações acerca da influência dos organismos que financiam o trabalho quanto ao desenho do estudo ou à interpretação ou relato dos resultados obtidos. O processo de revisão pelos pares confere credibilidade à investigação, uma vez que o manuscrito foi verificado de forma independente e criticamente avaliado, incluindo a interpretação científica correta dos dados obtidos, tendo por base outras evidências científicas – não interessa, por isso, quem financiou a investigação.2 Inevitavelmente, existem variações nos padrões entre os vários jornais/revistas científicas. O fator de impacto de um jornal/revista científica reflete quantas vezes os manuscritos são citados noutros jornais/revistas com revisão pelos pares e dá alguma indicação da importância do jornal/revista na sua área de especialidade – quanto maior o número, maior o impacto ou influência.

O processo e a cultura de se verificar os trabalhos uns dos outros está a instalar-se no mundo científico. A partir do momento que um trabalho é publicado, é possível que sofra novas críticas por parte da comunidade científica através de cartas ao editor, discussões em conferências científicas ou via contacto direto com os autores do estudo em questão. Os autores podem justificar os seus resultados e podem corrigir ou refutar falhas ocultas 1 ,2 Isto é a natureza da ciência – todos os trabalhos estão abertos a críticas por parte de outros cientistas.

FOOD TODAY 04/2013

Fonte: http://www.eufic.org/article/pt/artid/the-scientific-peer-review-process/

Referências

1. Science Media Centre (2012). Peer review in a nutshell: http://www.sciencemediacentre.org/wpcontent/uploads/2012/09/Peer-Review-in-a-Nutshell.pdf

2. Sense About Science (2004). Peer Review and the acceptance of new scientific ideas. London: Sense About Science. http://www.senseaboutscience.org/data/files/resources/17/peerReview.pdf

3. European Science Foundation (2011). European peer review guide integrating policies and practices into coherent rocedures. Strasbourg: European Science Foundation. http://www.vr.se/download/18.2ab49299132224ae10680001647/European+Peer+Review+Guide.pdf